Encontrando artistas na favela PPG – Rio de Janeiro 0

31 de janeiro de 2013, último dia de um ano intenso e um desejo ácido de que meu 2014 começasse com a energia do mar. O Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa e de encantos mil, me recebeu de braços abertos em um dia ensolarado, brilhante, com o céu azul da cor do mar. Foi nas escadas escondidas, após um delicioso banho de mar, que eu disse adeus aquele ano tão excitante.

Assistir à queima de fogos na praia de Copacabana foi como eu dei boas-vindas a 2014. Dezoito minutos de luzes, barulhos e efeitos psicodélicos, embora extremamente poluentes ao mar; para mim não era apenas comemoração e festa, mas a energia mandalística que vinha daqueles desenhos que se formavam no céu e me hipnotizaram, me permitindo quase que meditar, mesmo perante aquela multidão. Segui andando pela orla e terminei a minha noite no posto 9 em Ipanema; Reveillon Bossa Nova, boa música, sossego, pé na areia e uma vista incrível para o Morro Dois Irmãos iluminado pelas luzes da favela Vidigal.

Primeiro de janeiro, hora de ir para a praia, relaxar, se energizar com o sol e a água salgada, quase que medicinal. Enquanto sentada na areia, pude observar um rapaz “descolado”, jeito de surfista e cabelo black-power, a desenhar em um caderno o dia todo. Fiquei curiosa, pois ele desenhava, desenhava e desenhou até o pôr-do-sol… aliás, que pôr-do-sol, aquele digno de aplausos, onde toda a praia se levanta para apreciar o visual deslumbrante dos raios solares refletindo sobre a água, que refletem sobre o céu e deixa tudo com cor de ouro….

Fernanda Hinke

Pôr-do-sol na praia de Ipanema  - Primeiro de Janeiro de 2014-

Depois de assistir a este espetáculo da natureza, fui convidada a me juntar ao grupo de jovens do qual o rapaz que desenhava fazia parte. Eu apostava que ele era um tatuador, mas quando perguntei do que se tratavam os desenhos, veio o primeiro presente do universo para 2014: o tal moço era um grafiteiro…haaaa, como posso acreditar que isto seja uma mera coincidência? Um dos motivos pelo qual eu estou no Rio é para realizar a segunda etapa do evento em prol da Surfrider Foundation com meus colegas da Montebelo com a colaboração do Conexão Cultural. A primeira etapa se passou em Paris em agosto de 2013, onde 5 artistas urbanos interviram em telas de fotos de ondas e doaram para salvar os nossos amados oceanos.

O primeiro passo do meu trabalho era descobrir artistas urbanos ativos para fazer a curadoria do projeto, meu plano era circular pela cidade, descobrir os muros coloridos e, consequentemente, os artistas do Rio de Janeiro; mas com este encontro natural com o artista PXE que desenhava na praia, as portas se abriram, quer dizer, ficaram escancaradas e em um super rolê de bike no dia seguinte, guiado pela gentileza de PXE, a minha investigação tomou forma.

O tour de bike ficou marcado para as 10 da manhã em Copacabana, em frente à casa de PXE. Dali seguimos para a lagoa Rodrigo de Freitas para ver alguns muros ao longo do contorno. Na sequência, um grande muro em frente do Jardim Botânico e ao pé do Cristo Redentor, todos uniam obras dos grandes nomes cariocas. Fotografei absolutamente tudo, mais de 300 pinturas, mais de 50 artistas entre eles: Toz, Acme, Marcelo Eco, Bruno Big, Tarm, Smael,  coletivo Muda, além de muitos artistas de outros lugares do Brasil e do mundo.

Street-art emoldurada pela natureza!

Fernanda Hinke

Rio de Janeiro

Fernanda Hinke

Rio de Janeiro

Fernanda Hinke

Rio de Janeiro

Fernanda Hinke

Godri

Fernanda Hinke

Rio de Janeiro

Fernanda Hinke

Bruno Big

Fernanda Hinke

Marcelo Ment

Fernanda Hinke

Kajaman e Bobi

Fernanda Hinke

Smael

Já exausta por pedalar horas e horas naquele sol, com um trânsito caótico que exige o dobro de atenção, pedalando junto aos pedestres de maneira a não ser atropelada pelos motoristas mal educados, chegamos ao Baixo Gávea, e seguimos para o Leblon, Ipanema e Copacabana, finalmente para ver as obras do meu “guia”  que domina as paredes da zona Sul Carioca, seja com um tag ou com pinturas complexas.

Fernanda Hinke

PXE em Ipanema

Fernanda Hinke

Personagens reais de Ipanema por Andrea Brandani

Além de grafiteiro, PXE também é um grande ativista, que desde 2008 faz ações nas praias de maneira criativa e colaborativa, sobre o tema Praia Limpa. Quando apresentei a ele a proposta do nosso projeto, ele aceitou sem hesitar. Comentei com ele sobre o meu desejo de ir para a favela ver como a arte urbana poderia ser transformadora. Foi então que PXE me contou um pouquinho sobre os projetos do grafiteiro Acme, morador da favela PPG (Pavão, Pavãozinho e Galo-Cantagalo). Acme, além de pintar intensamente e convidar outros artistas para intervirem na favela com o intuito de trazer mais cores, cultura, integração e alegria à comunidade, foi também um dos fundadores do MUF – Museu da Favela.

Fernanda Hinke

Acme –  favela PPG

Nada poderia ser mais perfeito do que visitar a favela e aproveitar a oportunidade para convidar Acme pessoalmente a participar do nosso projeto. A princípio tínhamos uma impressão que se tratava de uma favela tranquila, pacificada e não nos preocupamos em subir até o topo do topo (onde Acme mora), em um lugar chamado de Campo do Vietnam.

Fernanda HInke

PXE, Raissa e eu subindo a PPG

Para esta visita, em uma sexta-feira nublada, depois de uma tempestade que havia ocorrido no dia anterior, alagando parte da cidade e deixando muitos moradores sem energia, fui acompanhada de PXE, as garotas do Conexão Cultural, Raissa e Manuela, assim como Demian, Inglês  do site Underground Paris. Subir o morro parecia uma aventura, embora perceber a realidade foi algo triste. Muita sujeira, sem saneamento básico, casas apertadas em labirintos e becos, construídas em locais de risco, energia puxada ilegalmente e perigosamente, dificuldade para subir os longos, irregulares e ingrimes degraus que me deixaram com dores nas pernas por dias.

No meio do caminho, encontramos um grupo da polícia, armado com fuzil e metralhadora; ficamos petrificados, pois os mesmos estavam quase que em“ação”, apontando as armas para frente, para cima, se escondendo atrás dos muros e apontando as armas antes de se mostrarem. Parecia que estávamos dentro de uma cena do filme Tropa de Elite. Chocante saber que aquela realidade se repete em frente àquela comunidade, dia e noite sem parar.

Ao mesmo tempo, conforme íamos subindo e descobrindo grafites pelos muros, a maioria deles feitos por Acme, e também apreciando vistas panorâmicas e deslumbrantes do mar cercado pela Mata Atlântica, ficávamos ainda mais excitados para o encontro. Perguntando para a própria comunidade: “Onde é a casa do Acme?” Finalmente no topo, encontramos este pequeno paraíso, embora inseguro devido à violência da favela.

Fernanda Hinke

Acme na Favela PPG

Fernanda Hinke

Acme na Favela PPG

Acme gentilmente abriu as portas de sua casa, um ninho de amor, onde ele vive com seus dois filhos e sua esposa Iani, ou segundo as palavras do artista, sua princesa. Acme é um cara de visão, sensível e que acredita no progresso da comunidade, tudo o que suas mãos tocam se transforma em arte. Sua casa é toda feita de material reciclável e já é uma obra de arte em si mesma, embora muito simples e também muito aconchegante, com obras nas paredes feitas com lixo pelas crianças da comunidade e outros grafiteiros.

Fernanda Hinke

PXE, Acme, eu e Raissa com as crianças da Favela PPG

Para Acme o futuro está na educação que damos a nossas crianças. “As crianças que nascem na favela desenvolvem esperteza física para sobreviver no morro, com tanta sujeira e perigo, mas ao mesmo tempo elas não são estimuladas a ter senso crítico”. Acme nos explicou que devido à dificuldade de subir e descer o morro para acessar a cidade, muitas crianças não vão a escola ou começam a ir muito tarde.

Sua casa é cheia de crianças da vizinhança é um lugar seguro, saudável sob o resguardo deste casal que ama, ensina e transpira arte, mesmo em um ambiente “bomba-relógio”, onde tiroteios podem começar de uma hora para outra, como Iani descreveu. “Não temos paz um dia sequer, todas as noites ouvimos tiros, seja da polícia ou dos bandidos, vivemos com medo frequente”.

Acme tem um projeto de construir uma escola na quadra atrás de sua casa, desta maneira as crianças poderiam ser educadas na própria favela, uma vez que a prefeitura e o governo ignoram as necessidades básicas das comunidades nas favelas. Acme, agora está encabeçando e será o curador de um projeto que vai grafitar 40km de muros na Zona Norte do Rio.

Fernanda Hinke

Favela PPG

Fernanda Hinke

Favela PPG

Fernanda Hinke

Favela PPg

Fernanda Hinke

Favela PPG

E para finalizar esta visita incrível e transformadora, uma verdadeira lição sob a triste realidade do nosso Brasil, que se compensa com a vista espetacular de se morar no morro, e com corações nobres e sensíveis como o de Acme e Iani, Acme nos trouxe a uma trilha, ainda acima de sua casa onde pudemos ver o Rio de Janeiro, do topo do Morro Canta Galo, uma vista única para a Lagoa Rodrigo de Freitas e todos os cartões postais da Cidade Maravilhosa. Este é o único ponto da cidade em que se pode ver ao mesmo tempo o Cristo Redentor e a ponte Rio-Niterói. Faço minhas as palavras de PXE para Acme: Gratidão!

Fernanda Hinke

Acme e PXE no topo da Favela PPG

Fernanda Hinke

Topo da Favela Canta Galo

Fernanda Hinke

Topo da favela Canta Galo

Nota: No dia seguinte a nossa visita à favela PPG, um civil morreu baleado pela polícia. O garoto de 21 anos é acusado de tráfico e, segundo a PM, teria reagido a uma abordagem apontando uma pistola para os policiais. Moradores negam, afirmando que não houve troca de tiros e que ele foi baleado pelas costas. Veja artigo completo aqui:

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Acme e PXE estarão presentes na jam art section na praia do Leblon, posto 12, no dia 26/01, assim como os outros artistas confirmados: Rafo Castro, Bruno Big, Marcelo Ment e Cela Luz.

O evento produzido pela Montebelo em parceria com a produtora cultural Raissa Couto, em prol da Surfrider Foundation, é um evento beneficente e colaborativo, todos são bem-vindos a participar desta ação em prol da proteção dos nossos oceanos!

Fernanda Hinke