Once upon a time Paris was blue…

 

” Em algum lugar sobre o arco-íris , os céus são azuis e os sonhos que você ousa sonhar realmente se tornam realidade ” – Lyman Frank Baum

Photo: Raul Parreira

Le M.U.R.
Photo: Raul Parreira Maciel

21 de Agosto, 2013. Dia ensolarado e brilhante. Em diferentes horas, Montebelo/Surfrider membros e artistas começam a chegar em Paris.

Viena as 16:00, Frankfurt as 21:00, Stuttgart as 23:00 e Hossegor à meia-noite. Além da equipe que já estava em Paris, todos nós tinhamos um objetivo em conjunto para o dia seguinte: assistir a performance do brasileiro e grafiteiro Zezão no Le M.U.R. e organizar uma sessão de arte com artistas que generosamente criaram obras para a Surfrider Foundation, uma organização que visa proteger os nossos amados oceanos.

Photo: Raul Parreira Maciel

Jam art session at Le M.U.R. for Surfrider
Photo: Raul Parreira Maciel

Zezão, um artista que surgiu a partir da cena pixação nos subúrbios de São Paulo na década de 90, veio a ser o primeiro artista brasileiro a se apresentar no Le M.U.R. Durante uma turnê na Europa por 2 meses, que inclui projetos em Frankfurt, Kassel e Londres, além de uma exposição individual em Basel, Zezão encontrou 4 dias em sua agenda para vir para a cidade luz, que tem também  uma forte cena underground.

Desde 2007, a cada duas semanas o Le M.U.R. traz um novo artista para intervir nesta galeria a céu aberto em Paris. Há duas semanas, no final do verão europeu, quando muitas pessoas estavam fora de Paris desfrutando das praias,  nos trouxemos uma sensação de natureza para adicionar a performance de Zezão.

Photo: Martın Wunderer

Zezão at Le M.U.R.
Photo: Martın Wunderer 

Trabalhando com a agência Montebelo e animada em ter Zezão em Paris por alguns dias, pintando seus flops azuis, que transmitem a idéia de água limpa e paz, pensamos: porque não unir artistas de corações nobres e, fazer algo pelo  planeta?

Discutimos a idéia com o artista Jean Faucheur, que fundou o Le M.U.R. e outros importantes movimentos artísticos em Paris, e ele ficou interessado em trabalhar no projeto. Convidamos outros artistas e alguns deles colocaram suas energias para tornar o projeto possível, como Gilbert, Rafael Suriani, Quentin de Waele, Jean Faucheur, o protagonista do dia, Zezão e também  Dominique Larrivaz, que passou por lá durante a tarde e doou seu talento espontâneamente.

Photo: Martin Wunderer

Gilbert and Jean Faucheur for Surfrider Foundation
Photo: Martin Wunderer

Photo: Martin Wunderer

Jean Faucheur for Surfrider Foundation
Photo: Martin Wunderer

Photo: Martin Wunderer

Montebelo time for Surfrider Foundation
Photo: Martin Wunderer

Photo: Fernanda Hinke

Quentin de Waele for Surfrider Foundation
Photo: Fernanda Hinke

Photo: Martın Wunderer

Rafael Suriani for Surfrider Foundation
Photo: Martın Wunderer

A idéia principal: artistas criando obras de arte nas ruas, sob o tema “Proteção dos oceanos”. O resultado: 19 fotos de ondas em telas, criadas através de diferentes meios que foram doadas a Surfrider Foundation.

Se você quiser receber o arquivo em PDF com as obras de arte envie um e-mail para: hello@montebelo.org

Photo: Martin Wunderer

Artist for Surfrider Foundation
Photo: Martin Wunderer

22 de agosto : Foi um dia especial, criativo e azul em Paris.

Zezão Le M.U.R.

Zezão at Le M.U.R.

Mas a aventura com este galera de trabalho e artistas não termina por aqui. Os dias seguintes foram inesquecível também…

Amanheceu uma sexta-feira com ar fresco que prometia ser um dia especial.  Eu fui com Zezão visitar o artista francês C215 em sua casa em Vitry-sur -Seine,  amigos de outros carnavais, C215 convidou Zezão para pintar uma parede nesta pequena cidade, cheia de arte nas ruas, nos subúrbios de Paris.

Para  a surpresa de Zezão, C215 ofereceu uma parede em frente a sua casa, em um edifício muito popular. C215, os moradores e eu assistimos Zezão deslizando suas mãos pintando em formas curvas.  Gravou-se em minha memória  o momento em que  C215 saiu de sua casa pela primeira vez depois da pintura ser concluída, e suspirou: ” J’adore ” , uma expressão francesa que foi dita com tanta sinceridade que soou como música aos meus ouvidos …

Foi uma tarde bonita,  inspirada no amor de C215 por sua comunidade e por esta pequena cidade. Encerramos esta sexta-feira  com um passeio de bicicleta a Mid-night em Paris com a galera Montebelo (veja as fotos aqui). Mesmo durante a escuridão da noite, eu podia sentir Paris suave e azul ….

Zezão at Vitry Sur Seine

Zezão at Vitry Sur Seine

No dia seguinte , uma outra missão: pintar uma parede no festival de musica parisiense Rock in Seine. O festival, que teve também a onda como tema, convidou os artistas Zezão, Jean Faucheur e Gilbert para uma performance ao vivo.

Mesmo com as folhas amareladas e secas no chão, no Parc de Boulogne, nos lembrando que o outono está chegando, os flops azuis de Zezão trouxeram luz para Paris.

Zezão  Rock en Seine Paris

Zezão at Rock en Seine

Jean Faucheur Rock en Seine

Jean Faucheur em cima da pintura de Zezao no Rock en Seine
Minha vez de dizer:  J’Adore! 

Mas esse sábado foi um dia longo e extraordinário …. Às 23:00, Zezao, eu e a equipe Montebelo fomos nos encontrar com o artista Psyckoze, o “rei” das Catacumbas de Paris, para uma visita a este mundo literalmente UNDERGROUND.

A visita ilegal e guiada por Psyckoze nas Catacumbas, me fez descobrir um universo paralelo, cheio de pichações, graffites e mistérios. Zezão, que foi chamado por Psyckoze como seu “alter ego”, na cidade de São Paulo  (no Brasil, Zezão é o “rei” dos esgotos), estava em sua terceira visita a este lugar, mas o primeiro acompanhado por Psy, que freqüenta as Catacumbas regularmente por mais de 30 anos.

Foi um momento lendário e, naturalmente, Psy ofereceu uma parede para Zezão pintar e também um espaço para uma tag em uma parede que tem a energia de muitos grafiteiros do mundo.

Photo: Fernanda Hinke

Zezão tagging at Catacombs
Photo: Fernanda Hinke

Photo: Fernanda Hinke

Zezão pintando nas Catacombs
Photo: Fernanda Hinke

Zezão at Catacombs for Psycoze

Zezão at Catacombs for Psyckoze

Deixamos as Catacumbas em uma manhã chuvosa de domingo.

Eu ainda estou processando essa experiência extraordinária, na próxima semana, Montebelo vai apresentar um documentário em vídeo sobre esta visita e vou tentar expor meus sentimentos mais crus de medo, com um contraditório sensação de paz.

Este estranho e chuvoso domingo foi mágico. Fazia frio, estava silencioso, introspectivo e para finalizar a visita de Zezão em Paris fomos ao pitoresco bairro Le Marais. Zezão foi convidado por Xavier Faltot, que dirige a galeria Le Chapon Rouge, para pintar uma parede em uma área onde grafite não existe.

Photo: Xavier Faltot

Zezão pintando no Le Marais Photo: Xavier Faltot

Photo: Xavier Faltot

Zezão  at Le Marais
Photo: Xavier Faltot

Cercado pela iluminação amarela e nostálgica de Paris à noite, em uma rua completamente vazia, Zezão deixou suas últimas formas orgânicas azuis na cidade.

” C’est magnifique” , disse Xavier Faltot .

Eu estava completamente hipnotizada assistindo Zezão pintando e fazendo Paris mais azul durante estes dias …

 

Apêndice

O que significa passar 4 dias com um artista underground, que também construiu uma carreira no mundo da fine-arte? É apenas sobre a estética de sua obra? É sobre a técnica? É uma questão de cores, se eu gosto de azul ou não? É complexo ? Repetitivo? O que isso significa?

Para um artista que surgiu a partir da cena do graffiti, não podemos nos esquecer de perguntar: Qual é a história da vida do artista? E no caso de Zezão a questão principal deve ser: Qual é a realidade de alguém que cresceu nos subúrbios e favelas do Brasil?

Qual é o ponto da arte do graffiti?

É importante dizer que, mesmo que Paris tem uma cena de arte urbana forte, iniciada na década de 60 com o nouveau- realismo, seguido pelos arte-posters em Maio de 68. Black Le Rat colocou seu primeiro stencil no 14 º arrondissement de Paris, em 1981, muito antes de Banksy. Em 1984, Jone One criou o crew de graffiti 156, que inclui Psyckoze, mas foi na década de 90, uma década em que Paris foi liderada por grafiteiros, que Zezão (e muitos outros artistas brasileiros da cena da pixação ) foram completamente influenciados pelo filme francês ” Dirty Hands”.

Quero dizer, Paris tem uma forte influência sobre a carreira de Zezão. Dentro de trens e metrôs, viajando por aí com Zezão, eu podia sentir seu corpo tremendo de vontade de intervir. “Oh não, graffiti em trens está completamente fora meu querido “, eu lhe disse.

Andando nas ruas, cada vez que Zezão via um bueiro, ele ia verificar se era possível abrir, um desejo nato de ir todo tempo para o subterrâneo.

Sentimentos e atitudes que estão em seu sangue, mesmo  apos 20 anos neste caminho. Um verdadeiro out-of-the-system como um artista.

Embora passei dias cheios de gratidão com Zezão, lembrei-me de que este movimento, que inclui o aspecto ”ego” de uma maneira muito exacerbado, com rivalidades entre gangues, vandalismo e muitas vezes uma expressão de cólera, eu me perguntei: Por que esse universo tanto me fascina? E de repente me lembrei da sabia frase de Jean Faucheur:

” A arte é sobre a destruição de algo para construir algo novo ”

 

Leia a minha entrevista com Zezão feita em abril passado para o site Underground Paris aqui.


Atualização em 01/05/2018 – Fernanda Hinke, idealizadora deste blog tem um novo projeto em Paris com passeios de bike e de street art. Saiba mais acessando o post Venha nos visitar no site meianoiteemparis.com.br