Outono no Vale do Loire 0

Breve Passagem:

O verão se foi,  mal chegou foi-se embora, sem olhar para trás, deixou as portas abertas para a melancolia e a tristeza se instalarem.

O outono chegou, passageiro como era de se esperar, surpreendeu o coração, com esperança e afeto, deixou a tristeza escapar.

Outono intenso e desbravador, quente, amigo, com sabor.

A janela por ora aberta, por ora fechada, revelava os dias curtos, escondidos na noite que tão cedo foi se acostumando a chegar.

Os dias cinzas, se tornavam mais frequentes, o sol foi perdendo o espaço para brilhar.

O outono se foi, desta vez a melancolia que permaneceu escondida, teve espaço para se revelar.

O inverno bateu na porta e o que eu fiz foi fugir deste lugar…..

Autunm in Paris - Photo: Fernanda Hinke

Outono em Paris – Photo: Fernanda Hinke

Estávamos no auge do último outono europeu, as temperaturas baixando a cada dia. As folhas, em sua maioria amarelas, por ora verdes e vermelhas, começavam lentamente a cobrir o chão, formando um patch-work natural, como um reflexo da própria árvore em dias cinzentos, sem sol.
Uma alegria presenciar este belo espetáculo da natureza, meu coração batia forte, mas também um bocado aflito, uma saudade antecipada de saber que em breve só sobrariam as árvores secas, sem cor, sobrevivendo a um inverno frio e rigoroso.

Autumn in Paris - Photo Fernanda Hinke

Outono em Paris – Photo Fernanda Hinke

Decidi viajar, viajar sozinha, viajar na França, viajar de bike. Queria introspectar, refletir, isolar-me, sem muito planejar. Talvez uma vontade subjetiva de me preparar emocionalmente para a próxima estação que estava para chegar.

O Vale do Loire foi meu destino, região magnífica no centro da França, que mistura o rio mais longo do país, com florestas, castelos, pequeninas cidades medievais e muitas, muitas plantações de uva. Uma paisagem que inspirou muitos escritores e poetas na época da Renascença, além de ter sido declarado como patrimônio mundial pela UNESCO no ano de 2000.

The Loire Valley - Photo Fernanda Hinke

Vale do Loire – Photo Fernanda Hinke

Peguei um trem à Tours, a 250km de Paris.  Logo ao chegar, já aluguei uma bike e encontrei um lugar aconchegante para ficar. Tours é uma cidade simpática, muito antiga, com um antigo centro, comparável ao Le Marais parisiense. Onde está a cripta de Saint-Martin, o santo misericordioso, morto em 397. Tudo caminhava bem, até que pela primeira vez senti o preconceito de viajar sozinha, uma mesa em um restaurante me foi negada justamente por minha solitária presença; não me deixei abalar.

Tours - Photo: Fernanda Hinke

Tours – Photo: Fernanda Hinke

No dia seguinte, a viagem de bike começou.  Decidi ir a Amboise, a 25km de Tours.  Era feriado, parei em um bar local para tomar um café antes de pegar a ciclovia. Ao entrar me deparei com um tacho enorme de batatas ao molho sendo servido naquele dia frio. Os locais pareciam se divertir, logo ficaram curiosos com minha presença solitária, queriam saber o que fazia por ali; quando contei a todos que estava seguindo viagem de bike pelo Loire, as pessoas me olhavam espantadas, murmuravam umas com as outras e me perguntavam se eu não tinha medo; pelo contrário eu era pura valentia, me senti inspirada pela Joana D’arc, enfrentando meus medos, desbravando o Vale do Loire.

The Loire Valley – Photo Fernanda Hinke

Vale do Loire – Photo Fernanda Hinke

Hora de partir, em uma tentativa frustrada de visitar uma cave em Vouvray,  pedalei 10km sem chegar a lugar nenhum. Retornei a Tours, ao ponto de partida. Agora sim, na direção certa a Amboise, a aventura começou, pedalando às margens do rio selvagem, respirando ar puro, acompanhada de um silêncio que trazia paz ao meu agitado ser.

Quando a ciclovia, forçadamente, me tirou das margens do rio para cruzar um pequenino vilarejo, uma chuva fininha, gelada e discreta, chegou para ficar. Não tive escolha, tive que continuar a pedalar, nem um comércio aberto, nenhuma marquise, ninguém, absolutamente ninguém que pudesse me abrigar.

O medo e o frio aumentavam aos pouquinhos, mas pela primeira vez na viagem, fui surpreendida por uma belíssima plantação de uvas no caminho. Olhar aquela plantação enorme em um horizonte sem fim, me fizeram superar o frio e o medo, me enchendo de coragem para continuar.

Vineyard - Photo Fernanda Hinke

Plantação de uvas- Photo Fernanda Hinke

Mas a chuva não dava trégua; mesmo que fosse uma fina garoa, a alguns quilômetros de Amboise, meu corpo começou a se desesperar por abrigo e água quente. A paz foi-se embora totalmente, precisei controlar-me para que minha mente também não se desesperasse.

A estratégia foi começar a usar a imaginação, sonhar de estar aquecida ao lado de uma fogueira com alguém pra me cuidar… um sonho ironicamente contrário a minha ideia de me isolar. Assim driblando minha mente e o meu corpo, que se encontravam em seus limites, cheguei em Amboise, embaixo de uma tempestade.

Amboise - Photo: Fernanda HinkeAmboise - Photo: Fernanda Hinke

Amboise – Photo: Fernanda Hinke

Ao encontrar abrigo, logo fui amparada por um grupo de lésbicas que, calorosamente, me ofereceram café e bolo. Ao conferir meu telefone, percebi ter recebido um convite, um amigo que morava não muito longe dali entrou em contato e me convidou para visitá-lo em sua casa.

Embora a princípio eu tenha hesitado (afinal, meu propósito seria de me isolar), aceitei o convite. Meu refúgio mental daquela tarde durante aquelas difíceis horas pedalando na chuva, lentamente se tornava real. Primeiro me colocando ao lado de uma fogueira dentro de uma sala imensa, quentinha com pessoas calorosas e conversas enriquecedoras. O meu amigo mora em um castelo no Loire.

Castle - Photo Fernanda Hinke

O Castelo – Photo Fernanda Hinke

No dia seguinte, era hora de seguir viagem, deixei o conforto do castelo e parti conhecer o charmoso vilarejo de Amboise. Presenteada por um breve céu azul, em apenas algumas horas na pequenina cidade, visitei o castelo principal, assim como o castelo de Clos, onde Leonardo Da Vinci viveu por 3 anos até sua morte em 1519.

The Castel of Amboise - Photo Fernanda Hinke

Castelo de Amboise – Photo Fernanda Hinke

 Amboise - Photo Fernanda Hinke

Amboise – Photo Fernanda Hinke

Amboise - Photo Fernanda Hinke

Amboise – Photo Fernanda Hinke

Mas este pequeno vilarejo me colocou face a face com um senhor muito simpático, que habitava em uma das poucas casas construídas dentro da rocha. Este senhor costuma convidar os curiosos pela arquitetura a entrar; sua maior relíquia eram livros, livros onde pessoas do mundo inteiro que por ali passavam, deixavam mensagens em suas línguas maternas. Após alguns minutos de visita, resolvi escrever algo em português e surpreendentemente, palavras e mais palavras fluíam por meus dedos com a voz do meu coração, palavras de amor e de esperança. Contei ao senhor que tinha uma longa viagem pela frente, 42km para chegar em Blois. O bondoso senhor me presenteou com seu croissant e me disse para ter cuidado; com um belo sorriso no rosto e um croissant no bolso, nos despedimos; aqueles minuto foram revitalizantes e me deram coragem para seguir viagem.

House on the Rock - Photo Fernanda Hinke

Casa na rocha – Photo Fernanda Hinke

Quando estava saindo de Amboise, o céu já estava negro e naquele dia, meu único desejo era que a chuva me deixasse pedalar em paz. O meu desejo foi atendido, embora com frio e fadiga, por alguns momentos o trajeto foi tranquilo. Cruzei por vilarejos fantasmas, muitas plantações de uva, subidas e descidas que me emocionavam e me davam vontade de gritar, pinheiros coloridos e brancos, cavalos, ovelhas, casteletes, comprovando a beleza selvagem do Loire.

On the way to Blois - Fernanda Hinke

No caminho para  Blois – Fernanda Hinke

On the way to Blois - Fernanda Hinke

No caminho para Blois – Fernanda Hinke

The Loire Valley - Photo Fernanda Hinke

Vael do Loire – Photo Fernanda Hinke

The Loire Valley - Photo Fernanda Hinke

Vale do Loire – Photo Fernanda Hinke

Em alguns momentos, quando eu entrava em trechos de mata fechada, o medo voltava a me assolar, afinal, eu estava sozinha, a bike poderia quebrar, muitas folhas e galhos no chão, derivados de um outono intenso, cobriam meu caminho.

Exausta novamente, como no dia anterior,  por esta mescla intensa de medo e alegria, avistei a cidade de Blois, às margens do Loire; parei por alguns instantes para agradecer pela minha vida. Abri a minha bolsa, devorei meu croissant, presente do senhor de Amboise.

Blois

Blois

Percebi porque todos me olharam assustados no bar em Tours; viajar sozinha, de bike, em uma estação do ano não muito propícia para tal, tanto é que não encontrei ninguém de bike durante meu trajeto para acompanhar.

Com aquela sensação de missão cumprida, após viajar durante 2 dias completando um percurso de quase 80km, devolvi a bike em Blois, peguei um trem e voltei para Amboise. Retornei ao castelo, onde vivi um final de semana intenso, cercada de muitas obras de arte de grandes artistas, dos quais muitos já tive o prazer de encontrar. Comida orgânica, vinho local, boa conversa e um amor de Paris que veio me esquentar.

A sabedoria do Universo nos ensina que tudo que desejarmos nesta vida iremos ter, tudo antes de se materializar foi um mero pensamento.

Sendo assim, o grande desafio da vida é sabermos o que desejar… se desejei certo ou não, realmente não sei dizer, o importante é que durante este outono, em Paris e no Loire, vivi, e vivi intensamente, sobrevivi e jamais irei me esquecer.