Zezão – Street art e nobre coração

Durante recente visita ao Brasil, tive a imensa oportunidade de entrevistar o grafiteiro, artista plástico e fotógrafo Zezão.

Emergente da terceira geração de grafiteiros do Brasil, Zezão, 41 anos, começou a grafitar em 1995. Em 2003, ele ficou conhecido em todo o Brasil após postar algumas fotos na internet sobre o seu trabalho feito no esgoto subterrâneo da cidade de São Paulo.  Seu famoso FLOP, uma assinatura derivada de “flow-up”,  é uma forma orgânica azul, com influência tribal, caligrafia própria e abstrata, que pode ser encontrada em favelas, muros, esgotos, pontes e lugares abandonados, contrastando a rudeza destes ambientes com um delicado e limpo azul.

Zezão São Paulo graffiti Brasil

Zezão – São Paulo

Zezão São Paulo graffiti BrasilPhoto Zezao’s flickr

Zezão cresceu na perifieria, não concluiu o colégio, perdeu os pais ainda muito jovem, trabalhou muitos anos como motoboy e sofreu com a depressão.

Artista autodidata, Zezão é amante da maloqueiragem e do lixo como mídia para desenvolver sua fine art. Circula livremente entre a periferia, assim como em galerias de arte ao redor do mundo.

A entrevista foi agendada em seu novo estúdio, no bairro do Bom Retiro em São Paulo, aproximando-me novamente com o meu antigo mitie (veja a minha história relacionada a este bairro na minha entrevista com o artista brasileiro baseado em Paris, Rafael Suriani).  Um bairro que frequentei  por dez anos e que fica cara a cara com um dos pontos da Cracolândia (concentração de usuários de drogas)  no centro de São Paulo.

 

Zezão São Paulo Graffiti Brasil

Zezão Estudio

Meus leitores já sabem como eu acredito nas leis da sinergia com o universo. Mais uma vez, o universo me conectou com um artista que faz muito mais do que arte esteticamente bela, é também política, social, ecológica e genial. Zezão possui alma nobre, que constatei durante a entrevista , quando ele me deu uma aula sobre o poder de estender a mão a outro ser humano, dar uma oportunidade ao próximo, encarar preconceitos e transformar uma vida marginalizada pela sociedade.

Quando a entrevista aconteceu (último fevereiro), Zezão estava preparando a sua atual exibição “Lembranças de um passado adormecido” para a galeria Athena Contemporânea, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Em primeira mão tive a oportunidade, de fotografar algumas peças da exibição, assim como entender o conceito desta série de trabalhos incríveis.

Zezão São Paulo graffiti Brasil

Zezão Estudio

Zezão alugou o prédio do seu atual estúdio no final de 2012. Um lugar que costumava ser ponto de comercialização de drogas, uma pensão invadida, com muito entulho. Ao procurar carroceiros que pudessem ajudá-lo a organizar e limpar o local, Zezão resolveu dar uma oportunidade para as pessoas que viviam ali por perto da Cracolândia. Segundo Zezão, no primeiro dia apareceram10 pessoas para trabalhar, no segundo dia a metade, diminuindo gradativamente. Mas um desses “viciados” estava muito disposto a trabalhar, chegava cedo e ficava até mais tarde, um verdadeiro trabalhador que chamou atenção de Zezão.

Seu nome é Cícero Rodrigues, mais conhecido como Índio.

Zezão São Paulo graffiti Brasil

Índio (esquerda) and Zezão

Índio era morador de rua que sobrevivia garimpando o lixo da cidade.  Ele nasceu em Pernambuco e há quatro anos decidiu se mudar para São Paulo, aonde chegou depois de 50 dias, descalço e desfigurado pelo sol.

Ao conhecer a história de Índio, Zezão revelou a ele sua verdadeira história, que sua arte derivava do lixo. O lixo de uma maneira extraordinária conectou esses dois seres. Após ganhar a confiança de Zezão, Índio foi diminuindo o uso de crack e passou a ser o braço direito de Zezão neste novo local.

Índio se viu pela primeira vez sendo respeitado por seu trabalho e por sua história de vida. Zezão, por sua vez, viu a chance de transformar um viciado e morador de rua marginalizado em um verdadeiro cidadão.

Zezão São Paulo graffiti Brasil

Zezão Estudio

Zezão São Paulo graffiti Brasil

Zezão Estudio

Para a atual exibição de Zezão, que é feita principalmente em cabeceiras de cama, Índio recolheu mais de 30 peças nas ruas. Alem de ser pago por seu trabalho, Zezão lhe deu a oportunidade de moradia, está providenciando os seus documentos (que até então Índio não possuía, vivendo literalmente como um indigente), lhe ensinando a fazer arte e ainda pretende lhe dar uma comissão por cada peça de arte vendida.

Uma amizade e cumplicidade nasceram desta bonita parceria, onde ambos ganham muito, material e espiritualmente. Zezão confessou que tem sofrido muito preconceito por pessoas próximas, por não entenderem sua relação com uma pessoa considerada marginalizada pela sociedade. Mas para ele não importa, ele não pode negar suas raízes, e a vontade de ajudar um ser humano é mais forte do que manter aparências.

Pude sentir em Índio uma gratidão muito grande pela oportunidade que Zezão esta lhe proporcionando, assim como observar como uma vida pode ser transformada através de um coração nobre como o de Zezão.

 

Zezão São Paulo graffiti Brasil

Zezão Estudio

Para saber mais sobre a arte de Zezão, acesse a entrevista completa no site Underground Paris.